Senta-te aqui comigo e serve-me esse teu café morno. Hoje não venho dar-te uma fórmula mágica de copywriting, nem o segredo para a locução perfeita. Abro-te a porta dos bastidores que a maioria faz questão de trancar: vou contar-te coisas giras sobre falhanços criativos.
A Metapoesia defende a criação como um processo intencional. No entanto, há uma grande mentira no digital: a de que os criativos vivem em iluminação constante, a faturar e a acertar à primeira.
Isto não é verdade, ok? A perfeição é mesmo aborrecida.
Nem tudo o que soa bonito na nossa cabeça sobrevive ao mundo real. Quando o processo aperta, eu própria faço pausas, implico e fico genuinamente frustrada. Olhar para o que fiz mil e uma vezes sem ver saída? Não dá como não dar em louca.
Nesses momentos, preciso de parar, beber o meu sumo de laranja natural e ir passear a minha cadela Mura.
Esta é uma reflexão honesta para quem já quis apagar um projeto inteiro. Decidi deitar por terra o pedestal do criador infalível e partilhar contigo três momentos em que bati de frente com a parede e como estes tropeções acabam por moldar a intenção das tuas criações.
As intenções criativas de todos os criadores
Todos nós temos um cemitério de ficheiros esquecidos ou até mesmo áudios que nunca vão ver a luz do dia. Promete-me que vais olhar para eles com orgulho: criar coisas feias é a primeira prova de que tentaste dar corpo a uma ideia.
What if… os textos pudessem ficar ainda mais bonitos?
Gosto de trabalhar pela noite dentro. Há qualquer coisa no silêncio absoluto do meu escritório que me liberta as palavras, de preferência apenas com a minha companheira Mura a existir ao meu lado.
Foi numa dessas noites que me sentei ao teclado para escrever sobre um spot de Recrutamento e Seleção… Acreditas? Demorei mais tempo do que pensei. Descarreguei tudo. Quando terminei e reli o texto, percebi que nada nele fluía.

Não o apaguei, mas guardei-o. Ainda não tive a coragem de agarrar nele e de o trabalhar a sério. Preciso de tempo e de estudar outras criações que me inspirem à minha volta.
O take de uma claquete desmotivada
Quando reencontrei esse manuscrito, reli-o com o distanciamento que só os meses dão. Limpei as arestas, mudei o ângulo da narrativa e arrisquei gravar o spot.
Em teoria, a ideia base parecia excelente: uma mulher desmotivada encontra um emprego que a empodera. Mas falhei na execução. O tom e a intenção não me confortam até ao dia de hoje. Nos primeiros ensaios, tentei adicionar o áudio num post estático com um vinil da Metapoesia a girar. O resultado foi aborrecido e visualmente pouco cativante. Ficou feio.
Eu queria muito fazer isto em vídeo. Não só porque o impacto visual seria muito mais interessante, mas porque queria evoluir as minhas capacidades de edição numa terceira dimensão: dominar a escrita, o áudio e, finalmente, o vídeo.
Mas a verdade? Abandonei o projeto da Horizontes RH. Ele nunca chegou a ver a luz do dia.
No entanto, o bicho da terceira dimensão já tinha mordido. Recusei-me a desistir da edição de vídeo. Peguei em tudo o que errei ali e decidi canalizar essa energia para uma criação totalmente diferente: um anúncio conceptual em formato ASMR para a Cervejaria Bacco.
Às vezes, a maior coragem de um criador é saber abandonar uma ideia que não funciona para abrir espaço para o projeto que nos vai fazer evoluir. E está tudo bem com isso.
Desta vez, não cometi o mesmo erro. Em vez de um vinil estático e enfadonho, juntei a voz a imagens de uma modelo na golden hour, a receber a brisa do dia enquanto a espuma da cerveja transbordava. Foi preciso largar um projeto que nasceu torto para conseguir criar um conteúdo com alma que sempre visionei.
O verdadeiro “T” é de teimosia a mais
Foi precisamente esse traço que deu vida a este processo criativo. Teimei, teimei, teimei até concluir que às vezes não é preciso teimar mais. Basta entender quando parar e, Metapoeta, poderes teimar no projeto seguinte.
Criar com intenção exige saber ouvir e antecipar o mercado. O copywriting não serve para massajar o ego de quem escreve, mas sim para construir pontes entre uma dor real e uma solução prática.
Reinventei a história de Baco através destas cervejas artesanais, porque teimei que as publicidades atuais exploram pouco o branding sensorial.
Porquê celebrar o teu próximo take falhado?
Nenhum erro ou rascunho engavetado é tempo perdido. Se eu não tivesse batido de frente com a parede no projeto da Horizontes RH, nunca teria ganho a maturidade ou o impulso necessários para arriscar e acertar em cheio na campanha da Cervejaria Bacco. Estes projetos foram, na verdade, os meus melhores professores.
Se não tivesse falhado ou criado estes cenários, ainda estaria a tentar agradar a métricas de vaidade ou a esconder-me atrás de máscaras técnicas que não servem de nada.
Quando partilhamos apenas os nossos casos de sucesso, criamos uma barreira de vidro invisível com quem nos lê. Por outro lado, quando assumimos que gritamos com o ecrã do computador, que precisamos de parar para ir passear a Mura ou que cometemos algum dos pecados criativos, criamos ligação real.
A criatividade é um caminho de terra batida, faz sentido? Da próxima vez que um guião falhar, respira e deixa a poeira assentar.
Qual foi o teu falhanço criativo mais produtivo até hoje, Metapoeta? Partilha a tua história através de [email protected].
Se precisares de ajuda para guiar os teus textos ou a tua voz com estratégia, lembra-te de que a Metapoesia estará sempre a caminhar ao teu lado nesta viagem maravilhosamente imperfeita que é a criação artística.



