Era uma vez um bloco de notas abandonado na estante.
Ao folhear um caderno antigo, o cenário inicial de desordem (caligrafia apressada, frases incompletas e reflexões pela noite dentro) deu lugar a este misto de nostalgia, orgulho e desconforto emocional.
A tentação imediata foi fechar o bloco e ignorar o passado, mas um olhar mais atento revelou que aquele caos não era um ruído descartável qualquer, mas sim uma cápsula do tempo demasiado valiosa.
O que parecia apenas uns papéis velhos provou ser uma fonte inestimável de autenticidade e matéria-prima criativa. Resgatar esses rascunhos permitiu transformar rascunhos esquecidos numa mina de ideias poderosas para o aqui e agora.
Porque deves guardar os teus rascunhos
Passamos a vida a tentar inventar a roda no marketing e na criação de conteúdo. Sentamo-nos à frente do portátil, olhamos para o cursor a piscar numa folha digital em branco e exigimos o máximo da nossa cabeça sob esta pressão desmedida e totalmente controlada pelos outros.
O problema é que nos esquecemos do mais importante: a tua melhor comunicação não nasce de criar algo do zero hoje, mas de lapidar aquilo que já sentiste ontem.
Por outras palavras, é super fácil usarmos aplicações como o Notion, o Google Docs ou um bloco baratinho do Continente. Afinal, pouco importa o meio, o que importa verdadeiramente é a intenção na tua querida escrita criativa. O digital serve para catalogar. Mas o papel? O papel é onde está o verdadeiro diamante.
Purismo em escrever à mão (e outras manias minhas)
Eu assumo-me um pouco purista (talvez muito, ok?): faço questão de escrever 90% dos meus textos à mão e de os ter escritos fisicamente (alguns impressos, aqueles que escrevi no computador) ou guardados em guardanapos escritos com poemas só porque me surgiu a inspiração num dos mil cafés cá no Porto e não trazia o bloco habitual comigo.
Existe esta “subescrita” no ritmo dos manuscritos. A letra mais rápida, ou mais lenta, com que escrevia as minhas reflexões revela se eu estava chateada, frustrada ou simplesmente feliz e agradecida. Este subtexto está inerente e é muito característico da escrita à mão. Isso traz-me um prazer e um orgulho enormes, e emociona-me bastante ao rever os meus rascunhos e textos passados.

Quando pegas num bloco físico e numa clássica BIC azul ou preta, tanto faz, a tua mente funciona de forma completamente diferente. Não há botão de apagar, não há corretor automático e não há a pressão do gosto ou da publicação.
Um estudo marcante sobre a conectividade cerebral na Frontiers in Psychology provou que escrever à mão ativa padrões emocionais muito mais profundos do que escrever num teclado.
Naquele bloco esquecido na estante estava a minha verdade sem filtros. E é exatamente aí que habita a matéria-prima de qualquer boa criação.
Menção especial ao passado criativo
Voltar aos velhos blocos de notas dá medo, porque temos de confrontar a pessoa que fomos no passado. Mas respeito profundamente os meus rascunhos. Tenho blocos apenas com umas páginas escritas, mas para mim são religiosos e intocáveis. Não tenho a coragem de os corrigir. Se for para adaptar agora a algum texto, spot ou reel, ou o que seja, agarro numa nova folha.
Acaba por ser poético, sabes? É um símbolo de respeito pelo meu passado e pela minha evolução, um respeito a mim mesma.
Os teus rascunhos nunca são para se deitar fora.
Eles fazem parte do teu autoconhecimento enquanto criador e artista.
São a tua memória, representam a tua evolução e são o diário de tudo o que foste construindo ao longo do tempo
Agradeço-me. Agradeço-me muito por ter feito esses registos, por ter guardado rascunhos aparentemente feios, desorganizados ou, até mesmo, sem sentido e feitos de apenas palavras soltas. Olho para o passado com orgulho e alguma nostalgia: choro quando, por exemplo, leio os meus primeiros poemas que remontam a 2014. Sim, são muitos anos a escrever e a usar a escrita como forma de expressão.
Como lapidar rascunhos em bruto em diamantes
O teu leitor não quer saber de teorias perfeitas, ok? Ele quer conectar-se com a tua humanidade. Para transformar esses rascunhos em ideias novas e poderosas, só precisas de aprender o processo de lapidação:
1. Folheia o caderno sem o olhar julgador do “isto está bom ou mau”
Procura apenas por flashes de verdade:
- Aquela frase solta que te fez parar para pensar.
- Aquele poema inacabado onde desabafaste sobre uma frustração.
- Aquela pergunta que deixaste no ar há anos e que, com a tua maturidade de hoje, consegues responder.
2. O que é que esta emoção tem de universal?
Eu acredito e defendo veementemente a autenticidade e a intenção nas criações. Quanto mais verdadeiros formos com nós mesmos, mais valor acrescentamos aos outros. Se formos fiéis e acreditarmos no nosso valor:
- Conseguimos transmiti-lo de forma genuína e tal e qual como ele é;
- Não carregamos aquela “fadiga de criar uma personagem só para agradar aos outros”;
- Sentimos que, quando as pessoas gostam de nós, gostam de forma verdadeira e tal e qual como somos.
Sê tu próprio. Mesmo que não sejas reparado ou elogiado logo com a tua arte, quando isso acontecer através de muito trabalho e dedicação, as pessoas irão inevitavelmente reparar na tua paixão e entrega. E não há nada mais valioso nesta vida da criação do que precisamente isso: entrega, paixão e dedicação.
3. Guarda num cofre digital
A intuição e o sentimento acontecem na folha de papel. Quando encontrares o teu diamante bruto, transcreve a ideia lapidada para o teu sistema digital favorito (seja o Notion ou o Google Docs). Assim, crias uma biblioteca pessoal de ideias valiosas pronta a usar quando a inspiração falhar.
Quem escreve por gosto não se cansa?
Dizem por aí que “quem corre por gosto, não se cansa”. A verdade? É que por vezes cansa, por vezes frustra, por vezes apetece desistir ou até mesmo mandar isto tudo dar uma volta e deitar todos os rascunhos no lixo, porque nada parece fazer sentido naquele momento.
Mas há sempre aquela luzinha, sabes? Lá bem no fundo do túnel que te guia e atrai. Ou talvez aquela estrelinha lá no céu que te guia e motiva…
Quem corre por gosto, cansa, e cansa bastante.
Mas também dá para descansar, e ficar descansado verdadeiramente,
pois, mesmo cansado, foste, continuaste, não desististe, mas sim acreditaste.
Quando partilhas o processo por trás de uma ideia resgatada, tu deixas de debitar conteúdo impessoal e começas a contar uma história. O teu público já está farto de listas robóticas. Chega disso, combinado? As pessoas procuram textura, profundidade, entrega e verdade.
Que caderno está a tossir com tanta poeira na estante?
Da próxima vez que sentires que estás sem ideias para escrever, não fiques a olhar para o monitor. Vai até à estante, tira um caderno antigo do fundo da gaveta e deixa-te surpreender com o que a tua versão do passado deixou para ti.
Fiquei curiosa: quantos blocos de notas tens guardados pela casa? Costumas voltar a eles ou ficam lá a ganhar pó?
Se ganhares coragem para agarrares num velho rascunho e transformá-lo numa ideia nova, envia-me uma DM para @meta.poesia ou um e-mail para meta.poesia.geral@gmail.com. Vou adorar saber qual foi o tesouro que resgataste desta vez!


