O cursor pisca. Três batimentos por segundo, talvez quatro. Um metrónomo silencioso que mede o tamanho exato da nossa incapacidade. É aquela paralisia fina que começa no peito, gela as pontas dos dedos e te convence, a cada segundo de silêncio, de que a tua última grande ideia foi também a última que alguma vez terás na vida.
Cá dentro, à frente da secretária, a tua própria voz sussurra o pior dos vereditos: “E se já tiveres dado tudo o que tinhas? E se o teu pico criativo já passou?”
Quero que respires fundo, combinado? Vamos falar sobre a mentira mais bem contada a todos os criadores: o medo de criar não tem de ser um muro intransponível. E hoje, vamos desmontá-lo pedra a pedra.
Levaste uma pedrada do medo de criar?
Há uma insegurança muito específica que raramente confessamos com outros criativos. Aquele pensamento intrusivo de que o último grande projeto, aquela campanha que todos elogiaram, ou aquele poema que rasgou o peito, foi um golpe de sorte.
Olhas para trás, para o que já fizeste, e em vez de sentires orgulho, sentes pânico. Sentas-te para começar algo novo e pensas: Eu nunca vou conseguir superar aquilo.
Esta autossabotagem alimenta os nossos piores bloqueios criativos. Exigimos que o rascunho de hoje nasça com a maturidade do nosso melhor trabalho de ontem. Mas esquecemo-nos de uma verdade fundamental sobre o processo: tu não és um monumento estático. A tua criatividade é fluída.
O teu eu do passado tinha exatamente as mesmas dúvidas que tu tens agora. A única diferença é que ele continuou a caminhar no escuro até encontrar a luz. Se esse teu eu te visse agora, congelado diante do ecrã, ele não te julgaria. Ele dir-te-ia que o segredo que tu insistes em esquecer a cada novo projeto é simples: tu acabas sempre por te surpreender contigo mesmo no final.
Atira a primeira pedra se tens sempre coragem de criar
Quando o medo se instala, temos a tendência de olhar para o papel em branco como se fosse um muro intransponível. Mas a verdade é que não existe muro nenhum. O que existe é um monte de pedras soltas espalhadas pelo chão: a dúvida, a expetativa do cliente, a pressa, a comparação e a insegurança de não saber por onde começar.
Lembro-me das duas semanas inteiras que passei paralisada a tentar escrever aquele artigo sobre o Titanic para o meu blogue. Duas semanas a olhar para cada frase como se fosse um peso morto, de reescrever o mesmo parágrafo até perder a razão, sentindo-me a maior fraude da escrita. Fiquei presa a olhar para as pedras como uma condenação.
Só quando decidi parar de lutar contra o medo é que tudo mudou.
O segredo não é esperar que o medo desapareça para começares a construir. É usá-lo como alicerce. Cada hesitação, cada rascunho que rejeitas, é apenas mais uma pedra que assentas no chão.
As pedras no caminho devem ser celebradas
Quando o peso da expetativa é demasiado grande, a melhor estratégia é olhar para o rasto e para as fundações que já ergueste. Uma das táticas que descobri para desarmar aquela sensação overwhelming é mudar radicalmente a forma como encaro a folha em branco.
Em vez de me sentar diante do ecrã para planear tudo o que tenho de fazer (o que só serve para alimentar a minha ansiedade), eu faço um diário do que já consegui realizar.
- Regista as micro-vitórias: Mesmo que tenha sido apenas uma palavra certeira, uma boa referência encontrada ou dez títulos fracos descartados.
- Visualiza as fundações: Ver o caminho percorrido liberta o cérebro da pressão sufocante do ainda falta tanto para acabar.
- Alimenta a motivação: O teu cérebro responde muito melhor à recompensa do que já foi conquistado do que à ameaça do que ainda está por fazer.
Não é sempre possível aplicar esta lógica a 100%, especialmente quando os prazos da agência apertam e o cliente quer a ideia para ontem. Mas dá-te o benefício de olhar para trás e ver que o teu histórico é de superação.
Como a Metapoesia transforma rascunhos em fortalezas
No seu célebre livro The Artist’s Way, Julia Cameron fala sobre a necessidade de nos permitirmos escrever maus rascunhos para podermos, eventualmente, chegar à beleza. O objetivo não é ser genial à primeira, mas sim começar a empilhar pedras.
Escreve sobre o frio nas tuas mãos. Escreve sobre o barulho do frigorífico ao fundo. Escreve sobre a raiva que sentes daquela marca que te pediu um conceito disruptivo mas que só quer, na verdade, o mesmo cliché de sempre. Despeja o ruído para que a estrutura comece a ganhar forma.
Ir desfrutando da vista até chegar ao castelo
É verdade que ver a obra concluída traz um alívio indescritível, mas por que razão temos de fazer do processo de construção uma tortura? É urgente aprender a desfrutar do caminho, a namorar a dúvida em vez de a combater.
Precisamos do direito a brincar com as ideias sem o compromisso imediato da perfeição. Quando te sentires sufocado, muda de ar. Põe aquele City Pop Jazz que te transporta diretamente para o universo da ideia, fecha os olhos e deixa-te ir.
O sussurro que ouves no teu ombro (aquele anjinho teimoso que te diz tu consegues, desistir não é opção, tenta e, se correr mal, que se lixe) é a tua maior âncora de sanidade. Ouve-o mais vezes. A criatividade não é uma linha reta, ok? É uma construção lenta. Se só fores feliz no momento da entrega, vais passar 90% da tua vida em agonia.
O próximo castelo ainda está por vir (e agora já sabes disso)
Se precisavas de um sinal para começar, aqui o tens. O cursor continua a piscar, mas agora ele já não parece um inimigo. É apenas uma ferramenta.
- Assume o erro: Escreve a pior frase que conseguires estruturar nos próximos cinco minutos.
- Apanha a pedra: Aceita a dúvida e usa-a no teu primeiro parágrafo.
- Desfruta do processo: Solta o controlo, inspira-te com uma música e deixa-te mergulhar na ideia sem pensar no julgamento do mundo.
Se o medo de criar for uma pedra, junta todas as que encontrares no caminho. Amanhã moras num castelo.
Se o teu cursor também te desafia nas madrugadas, não passes por este processo sozinho.
Vem sentar-te à mesa de escrita da @meta.poesia. Deixa-me uma DM a contar: qual foi o teu pior crime de procrastinação disfarçado de trabalho?

