RIP aos clichés. O processo criativo estará sempre de luto?

O processo criativo não é uma linha reta. Se alguém te vender a ideia de que criar um conceito original, escrever um guião com ritmo e gravar um spot de áudio marcante é um percurso limpo, linear e corporativo… Foge imediatamente! Mentiram-te à descarada.

Criar é uma dança bonita, mas muitíssimo caótica, entre o silêncio e o ruído, entre o vazio interno e aquele momento mágico de clarividência às 2 da manhã de uma quarta-feira. Para que uma boa ideia ganhe vida, dezenas de caminhos óbvios e fáceis têm de preparar o seu discurso de despedida.

Se geres uma marca cansada do mais do mesmo ou se és um criador que passa noites em claro a tentar dar corpo a um rascunho, deixa-me abrir-te a cortina dos meus bastidores. O meu processo criativo na Metapoesia é cru, profundamente humano e, curiosamente, segue de perto as famosas cinco fases do luto descritas pela psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross na sua obra clássica On Death and Dying. Sim, leste bem.

Passarei a explicar, Metapoeta. Para dar vida a um spot que realmente põe os clientes a morder o isco, eu preciso de passar pela negação, pela raiva e pela negociação. É um funeral diário de ideias para que a autenticidade possa sobreviver. Deixa-me contar-te como tudo acontece, entre rabiscos noturnos e os meus fiéis chinelos de natação…

Às 18:30 no metro no centro do Porto, sinto a negação

Tudo começa com uma faísca espontânea. Um anúncio antigo que ouvi na rádio, uma conversa caricata apanhada no café da esquina, uma frase solta ou um som esquecido. O meu radar está sempre ligado e disponível para receber o mundo à minha volta com o ouvido e o coração abertos.

Para não deixar escapar estes pequenos milagres do quotidiano, ando sempre com uma rede de pesca. No meu caso, não esperes uma aplicação tecnológica topo de gama: refiro-me a um caderno de linhas do Continente e a uma BIC daquelas que nunca me falharam.

Dica criativa: Anda sempre com a tua rede de pesca à mão. O cérebro humano é ótimo a gerar ideias espontâneas, mas é péssimo a guardá-las a médio prazo.

Nesta fase, a negação surge disfarçada de pura euforia. Escrevo uma ideia rápida no metro e o meu cérebro prega-me uma rasteira: “Uau, isto é genial! Vou gravar isto em cinco minutos e vai ser o melhor spot que fiz!”.

Foi exatamente assim que nasceu a premissa para a Clínica Dentária Sorriso Feliz. Na minha cabeça, a ideia parecia instantaneamente perfeita, tão simples e tão engraçada. Mas a simplicidade crua é a coisa mais difícil de esculpir no mundo da comunicação. Spoiler alert: A negação faz-nos acreditar que o primeiro rascunho é intocável.

A raiva bate à porta do escritório pelas 20:00

Por incrível que pareça, a euforia inicial passa mais rápido do que um excelente anúncio da Nike. Quando finalmente me sento à secretária para transformar aquela ideia num copy publicitário com ritmo e musicalidade, a realidade bate-me à porta sem pedir licença. As palavras começam a tropeçar umas nas outras. O texto parece pesado, forçado e demasiado previsível. O cliché tenta instalar-se sorrateiramente, porque é a zona de conforto de qualquer mente.

É aqui que entro na fase da frustração pura. Olho para o meu pobre caderno rabiscado, corto logo as minhas únicas três linhas e penso: Isto não presta. Quem sou eu para escrever? Quem estou a tentar enganar?

Se já sentiste isto, deixa-me dar-te um conselho de Metapoeta: esta raiva criativa é, na verdade, bastante saudável. Ela é o sinal claro de que o teu nível de exigência artística é muito maior do que a facilidade do teu primeiro rascunho. É precisamente nesta fase que o diamante bruto começa a ser lapidado.

Para ultrapassar este bloqueio, aplico o meu segredo técnico indispensável: leio sempre em voz alta. Como o produto final da Metapoesia nasceu para ser ouvido, a escrita precisa de ser esculpida com essa intenção exata. A musicalidade do texto importa tanto quanto o significado das palavras. Tem de ter ritmo, pausas milimétricas para respirar e transmitir emoções que possam ser interpretadas. Se o texto engasga ou soa falso ao ser lido, apago sem piedade e recomeço do zero.

Às 23:30, negoceio com esperança que o caos me ajude

Aqui, o processo torna-se deliciosamente caótico e entra pelas muitas madrugadas dentro. Eu não sou uma criadora de rotinas rígidas. O meu ritual criativo exige o silêncio absoluto lá fora para que eu consiga fazer o barulho necessário cá dentro.

Calço os meus chinelos de natação muito confortáveis (sim, porque o conforto físico é sagrado para mim quando a mente está em ebulição) e faço um pacto de sobrevivência comigo mesma: “Só mais uma versão deste guião, gravamos e vamos finalmente dormir”.

É nesta quietude já bem dentro da noite que a magia da interpretação ganha corpo. Entro no meu estúdio: uso um microfone que o meu sogro trouxe da Antena 1 e um biombo sonoro totalmente improvisado por mim. Construí-o com espuma acústica, o caixote de cartão que sobrou de um kit de cadeiras de jardim e umas braçadeiras para combinar tudo.

Com o microfone ligado, experimento três, quatro ou cinco tons radicalmente diferentes para o mesmo texto. Testo um tom publicitário clássico e polido, passo para uma confissão íntima e sussurrada, e arrisco logo a seguir na ironia cortante da sátira social.

A maravilhosa depressão das 12 badaladas

Com os ficheiros de áudio finalmente gravados, chega o momento mais solitário e desgastante do percurso: a edição de áudio. É aqui que o cansaço das horas acumuladas se faz sentir e as dúvidas interiores atacam com toda a força. Olho para os blocos de ondas de som do Capcut e sinto todo o peso da responsabilidade nos ombros. Corto os silêncios excessivos, limpo ruídos que não quero, ajusto volumes e passo horas a escolher a banda sonora de fundo ideal.

Na edição, a minha regra de ouro é sempre o minimalismo: menos é mais. Não tentes encher o teu spot de efeitos especiais estridentes. Às vezes, um silêncio bem colocado no meio da mensagem provoca muito mais impacto emocional do que uma música épica de cinema. Mas encontrar esse ponto de equilíbrio deixa-me, muitas vezes, mentalmente saturada, a questionar se o projeto vai realmente passar a mensagem e a intensidade que imaginei…

São, finalmente, 2 da manhã e aceitei confiar no processo

E, de repente, depois de tantas batalhas internas com o texto, com a voz e com os cortes de edição, faz-se luz. Encaixo o último efeito sonoro, limpo a última respiração, faço o play final e… acontece a magia (com a qual fico sempre surpreendida e orgulhosa!).

Sinto aquele arrepio inconfundível na espinha. Olho para as colunas do estúdio e penso, com um orgulho genuíno, humilde e desarmante: “Uau, fui eu que fiz isto. Isto sente-se de verdade“.

A fase da aceitação é o nascimento oficial de cada criação da Metapoesia. Foi exatamente o que aconteceu quando publiquei finalmente o spot completo da Clínica Sorriso Feliz, misturando a sátira comercial direta com uma entrega interpretativa giríssima.

Quando um processo é verdadeiramente autêntico, o resultado final nunca é apenas um ficheiro MP3, mas é um pedaço da nossa própria verdade e vulnerabilidade que decidimos entregar ao mundo. E que coragem é preciso ter para criar coisas bonitas!

Luto das ideias ou lutar pelas ideias? Eis a questão.

O meu processo pode ser caótico e passar por todas as fases do luto, mas é precisamente essa fricção que dá às marcas muito mais do que um conteúdo genérico para preencher o seu calendário: marcas que procuram uma identidade áudio autêntica, capaz de criar arrepios e conexões reais com o seu público.

Agora a pergunta volta para ti, Metapoeta: como é que lidas com o teu próprio processo criativo? Onde é que costumas pescar as tuas melhores ideias?

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