O Fado, o Jazz e o Rock escrevem textos bonitos e tomam café juntos

São 20:32 da noite. Na mesa, o café já arrefeceu ao lado do gira-discos de madeira escura. Jazz colocou o vinil a girar. O estalo seco da agulha antecipa os sintetizadores de Forever Young, dos Alphaville.

A BIC volta a deslizar. Não é poesia… mas podia ser. A verdade que quase ninguém conta sobre a arte de criar: o teu texto não falha por falta de vocabulário. Falha, porque não tem ritmo na escrita. Falha, porque é surdo e não sabe dançar.

O desabafo entre Fado e Jazz

Onde o cheiro a bagaço se misturava com o vapor do café moído, Fado e Jazz conspiravam em segredo.

Fado, ajustando o xaile negro sobre os ombros, suspirou. Pousou a chávena com uma lentidão quase cerimonial e deixou o silêncio pesar na mesa antes de proferir as primeiras palavras:

A escrita está a morrer, Jazz… — murmurou numa voz rouca, esticando as vogais com o peso de uma saudade antiga. — As pessoas hoje escrevem sem dor. Escrevem à pressa. Faltam-lhes as minhas lágrimas…

O Jazz, baloiçando para trás na cadeira, batia ritmicamente com os dedos no tampo da mesa. Um toque imprevisível, a desafiar a gravidade do companheiro de mesa:

Não é só a dor que lhes falta, meu caro… — murmurou, deixando cair a frase para logo a seguir acelerar o raciocínio de forma inesperada. — Falta-lhes a vertigem. A imprevisibilidade. Ninguém arrisca um contratempo. As frases de hoje são retilíneas, limpas, corporativas… porque os escritores ganharam um medo mortal de desafinar.

A porta do café faz um estrondo: Rock chega atrasado

Subitamente, a porta de madeira da entrada abriu-se com um pontapé seco que fez estremecer os copos no balcão.

Rock chegou atrasado como sempre.

Trazia o casaco de cabedal reluzente, o cabelo desalinhado e um cigarro apagado entre os dentes. Atravessou o café a passos largos, agarrou no encosto de uma cadeira de ferro e arrastou-a com uma estridência metálica que arrepiou os dentes de quem ali estava.

Sentou-se ao contrário, com os braços apoiados nas costas da cadeira, e cuspiu a primeira frase:

Cheguei. Do que é que vocês os dois estavam para aí a murmurar com cara de velório?

Berros, brigas e melancolias à mesa

A escrita virou uma seca estéril — disse Fado, ajeitando o xaile com a gravidade de quem carrega o mundo nas costas. — E a culpa é tua, Rock. Só trouxeste grito, distorção e vandalismo. As pessoas esqueceram-se de como se chora numa frase.

Grito? Vandalismo? — Rock deu uma gargalhada ríspida, debruçando-se sobre a mesa com os olhos em chamas. — Vocês são uns mortos de fome! O leitor de hoje não quer velórios. Quer levar um estalo na cara. Frases curtas. Ponto final. Sem encher chouriços. Bater no peito como uma tarola, entendes?

Pobre rapaz… — Fado abanou a cabeça, bebendo o bagaço num golo lento. — Um estalo não deixa rasto. Sem dor, a tua frase é poeira ao vento. O texto precisa de sangrar devagar.

Sangrar? Que tédio! — o Jazz deu um salto na cadeira, estalando os dedos no ar e olhando para o teto. — Olhem para ali, aquela mancha na parede parece um saxofone tenor! Sabem o que é que falta à escrita? Vertigem! Mudança de plano! Começas a falar de amor e desaguas num camião de lixo a marchar pela Baixa. O texto tem de ser livre, imprevisível, genial!

Livre, carago? — Rock esmurrou a mesa, fazendo saltar o pires. — O texto quer sangue e velocidade! Corta o excesso. Avança. Já!

Isto precisa é de uma nota em suspenso… — murmurou Jazz, a fazer girar a colher de chá no ar, completamente alheio ao murro de Rock. — Um acorde menor. Ou talvez um café com cheiro a canela?

Insolentes… — Fado, revirando os próprios olhos.

A folha no centro da mesa continuava imaculadamente em branco. O texto estava paralisado pelo ego, pelo barulho e pela anarquia dos três.

O herói do ritmo na escrita acabou de entrar

É aqui que o herói entra no café: o escritor. Sou eu, nesta mesa. E és tu, diante da tua página em branco.

Puxo a folha para o meu lado, destapo a caneta e encaro os três:

Vocês não funcionam separados. Sozinhos, são ruído.

Aiiilhas! — ironizou Rock, acendendo um cigarro. — E como é que evitas a manta de retalhos, ó maestro?

Deixando os vossos egos à porta — respondi, apontando a caneta para ele. — Tu, Rock, dás-nos o Ritmo de Sobressalto. A maioria dos textos morre sufocada em orações infinitas. Tu chegas e dás a estalada: uma ideia longa, cheia de imagem, e logo a seguir o impacto seco. Duas palavras. Ponto final. Acordas o leitor.

Viram? — o Rock deu uma palmada na mesa, fazendo saltar as chávenas. — Ponto na cara! Sem gordura!

Que falta de chá… — o Fado suspirou, ajeitando o xaile novamente. — E a alma? Onde fica o repouso nisso?

Fica contigo, Fado. Tu trazes a Repetição. Na escrita, repetir não é ter pouco vocabulário. Pegas numa palavra com textura e fazes com que ressoe. Dá chão ao leitor antes do próximo turbilhão.

Fado assentiu devagar, satisfeito, e deu um golo no seu chá acabadinho de chegar à mesa.

E eu? — Jazz deu um salto na cadeira, estalando os dedos. — Vão deixar a festa presa entre o murro e o velório?

Nunca, Jazz. Tu dás-nos o mais difícil: o Valor do Silêncio.

Ah… Miles Davis! — Jazz piscou o olho, a sorrir.

Isso. Miles tocava o que não estava lá. O mau escritor tem pavor do vazio e atulha a página de adjetivos. Tu ensinas que a pontuação é a pauta: a vírgula é o fôlego, o travessão é a dúvida e o ponto final é o escuro onde o leitor sente o espanto.

Olhei para os três, que se calaram pela primeira vez.

Servimo-nos do Fado para dar gravidade, roubamos o Jazz para surpreender e chamamos o Rock para rasgar o excesso.

1001 ritmos diferentes para 1001 ocasiões

Não importa se estás a rascunhar uma carta de amor, uma tese de mestrado ou o guião de um spot de áudio. A escrita é um refúgio onde te despes perante ti próprio.

É aí que a cadência sonora entra como um reagente. Diferentes momentos pedem ritmos distintos:

  • O ritmo cru: A provocação e a batida urbana de um Slow J para rasgar a monotonia.
  • As músicas preferidas: A repetição de Um Contra o Outro, dos Deolinda, em loop infinito até isolar o cérebro das distrações.
  • A melancolia, a fúria ou o espanto: O contraste entre a contenção de uma guitarra portuguesa e a distorção de um Bob Moses cadente.

A música dita onde a tua frase vai respirar e onde o leitor vai processar a dor ou espanto.

Aqui não há segredos novos, mas convém relembrá-los

Da próxima vez que te sentares diante da página em branco, faz-me um favor: desliga do mundo e escuta o som do que acabaste de criar.

  1. Escolhe a frequência certa: Coloca a tua playlist mais secreta a tocar. Deixa que a atmosfera sonora invada o espaço antes de encostares os dedos às teclas ou à tua BIC.
  2. Escreve sem filtro: Escreve a primeira versão com a fúria do Rock e o improviso do Jazz. Não pares para corrigir. Deixa as frases desaguarem na folha como vierem, sem o travão de mão do perfecionismo.
  3. Faz a leitura em voz alta: Para. Afasta-te da mesa por dois minutos, volta e lê a tua frase em voz alta. Não a murmures mentalmente, antes faz com que as palavras ganhem corpo no ar da divisão.

O teu texto precisa de desafinar, de arranhar e de falhar na voz antes de encontrar o tom perfeito. Não tenhas medo da dissonância do rascunho: é a desafinação que abre caminho para a verdadeira melodia.

Puxa uma cadeira e junta-te à mesa

Como é que o ritmo na escrita influencia o teu processo criativo? Que disco te salva nos dias de folha em branco?

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