Falar em público não é afundar um Titanic

A coragem de expressar-se em público não tem de ser uma viagem de Titanic: tu não estás à deriva e o público não é o teu icebergue.

No oceano do digital ou da criação artística, falar para uma audiência é, para muitos, navegar em constante estado de alerta. O pânico de colidir com um bloco de gelo invencível (o medo de errar, de dar uma branca ou de começar a dizer barbaridades à frente de toda a gente) é o suficiente para fazer recuar até o mais ambicioso dos capitães.

Mas e se te disser que a tua expressão não tem de ser um desastre anunciado? É perfeitamente possível traçar uma rota onde o teu navio desliza seguro, garantindo que a tua viagem termina num porto de sucesso.

Se és um empreendedor introvertido ou um artista a tentar levar o teu livro ao mundo, deixa-me dar-te as boas-vindas a esta viagem corajosa noutro Titanic. Como alguém que já passou pela cabine da TSF e que pisou as tábuas do teatro noutros tempos, aprendi um segredo reconfortante: em palco, tu sabes sempre mais do que o espetador. O público só sabe o que tu escolhes mostrar.

A humildade perante a ambição é um colete salva-vidas

Ter ambição é tão maravilhoso! Mas a ambição sem humildade é o bilhete de primeira classe para o desastre. O Capitão Smith, do Titanic histórico, lá tinha a sua ambição imbatível, mas faltou-lhe a humildade de respeitar os avisos sobre o gelo à deriva. Na comunicação, o nosso gelo à deriva é o perfecionismo.

É preciso ter a humildade de aceitar que o erro faz parte do processo criativo. Quando gravo vídeos explicativos sobre o processo criativo (como aconteceu com a Cervejaria Bacco), esse medo de falhar também me bateu à porta. A tentação de parecer 100% infalível é imensa.

Quando te focas em ser (em transmitir a tua verdade, a crueza do teu processo, a paixão que te é mais fiel), o peso de parecer um mestre intocável desaparece. O público não se conecta com estátuas de metal frias e perfeitas… Metapoeta, ele conecta-se com seres humanos genuinamente imperfeitos. Se o teu navio for feito de autenticidade, nenhum icebergue cheio do julgamento alheio o conseguirá rasgar.

Desviando daqueles malditos icebergues mentais

Para dominares a arte de falar em público (ou qualquer outra maneira de expressão), precisas de reprogramar a tua mente antes de subires ao palco. Aqui estão os três pilares mentais que precisas de adotar para garantir zero sobressaltos nessa tua rota.

1. Reenquadra a ansiedade como entusiasmo

Cientificamente, os sintomas físicos do medo e do entusiasmo são exatamente os mesmos: o coração acelera, as mãos suam e a respiração fica curta. A diferença está na etiqueta que o teu cérebro coloca nestas sensações. Em vez de olhares para o nevoeiro e pensares Estou aterrorizado, vou bater, diz a ti mesmo: A minha ambição está a dar-me a força necessária, porque isto realmente me importa.

2. Substitui o eu pelo outro

O erro do capitão inseguro é focar-se nas suas próprias fraquezas: Será que estou bem? Será que a minha voz falhou? Isso é o equivalente a olhar para o chão do convés em vez de olhar para o horizonte. Muda o foco. Tu estás ali para guiar a tua audiência. O teu projeto pode ser a tábua de salvação de alguém naquela sala.

*Tens de ter confiança em ti mesmo, e essa confiança tem de vir do facto de que aquilo que estás a fazer tem valor para os outros, não apenas para ti.

  • Coppola (realizador de cinema mega famoso)*

3. Aprende a navegar com a maré

Se cometeres um erro, não tentes fingir que o navio não abanou. O público adora quando assumes o deslize com humor. Rir de uma gaguez ou de uma branca desarma qualquer icebergue de crítica e puxa as pessoas para o teu lado. Torna-te imediatamente humano aos seus olhos.

A confiança constrói-se em alto mar

Ninguém nasce com um microfone na mão a saber projetar a voz com o carisma de um ator de Hollywood. A confiança constrói-se em alto mar, saindo deliberadamente do porto seguro e da tua zona de conforto.

*Faz aquilo que temes e a destruição do medo é certa.

  • W. Emerson (escritor norte-americano)*

Sair da zona de conforto é um processo desconfortável por natureza. A confiança vem da acumulação dessas pequenas coragens diárias. É assim que limpas a rota de qualquer obstáculo.

O navio está a postos

A verdade é que o Titanic original afundou, porque tentou ignorar a natureza e manter a arrogância de uma performance perfeita e intocável. Na comunicação autêntica, a humildade de reconhecer o medo e a ambição de entregar algo belo andam sempre de mãos dadas.

Não tenhas medo de falhar. Como se costuma ler em manuais de referência obrigatória, o teu único e verdadeiro objetivo em palco é plantar uma ideia valiosa na mente dos outros. Faz-me um favor e promete que te focas na entrega, na partilha e na ligação com a audiência.

Confia em ti. Confia no teu processo criativo. Assume o leme e desfruta do alívio indescritível de ver o teu navio singrar as águas com a força da tua própria voz.

Metapoeta, vens navegar estas águas comigo?

Se és um artista ou simplesmente estás farto de guiões aborrecidos, a tua liberdade criativa está à tua espera. Passa pela @meta.poesia. É por lá que partilho, sem filtros, os bastidores do meu processo criativo com todos os pequenos naufrágios… Vais ser o King of the “Words”?